01 março 2011

DEPRESSÃO: O CORPO TAMBÉM ESTÁ DOENTE!

Pedi permissão para minha querida Carina para publicar um post esclarecedor que ela escreveu sobre depressão. Ela, que assim como eu, enfrenta esta doença há tantos anos. O que me chamou atenção no texto da Cá é ela falar desse momento que ela passa da mente lógica, cheia de perguntas, para o coração, cheio de respostas, as quais não são entendidas pela racionalidade, já que a linguagem do coração é completamente diferente da linguagem da mente. E nós ainda vivemos "a era do cabeção", cultuamos o intelectualismo, que gera sim muita angústia e nos faz sermos uma sociedade na qual transtornos mentais, como a Depressão, já atinjam mais a população do que a Aids. Quem sofre de Depressão ou qualquer outra doença semelhante: além de buscar a dobradinha: psiquiatra e psicólogo, busque algo que também trabalhe o corpo, alguma terapia corporal, ou bioenergética, porque também somos o corpo, que também guarda traumas e repressões, e para sair dessa mente lógica angustiante para viver com mais prazer no coração o caminho passa pelo corpitcho!

O Demônio Salvador

24/02/2011
Ontem terminei de ler “O Demônio do Meio Dia” (Andrew Solomon). E adorei como o livro terminou. Adorei as reflexões finais, justamente porque elas vem de encontro com o que sempre pensei. E quando se tem uma doença mental, é sempre bom descobrir novas opiniões semelhantes para ter a certeza de que o que você pensa é coerente.

O fato é que a depressão é um monstrinho que invade você, sem aviso, brutalmente e consome tudo o que você tem em seu interior. E ali permanece, querendo mais, consumindo o pouco de vitalidade que lhe resta. E onde há depressão não tratada, sempre vem a morte. Alguns se suicidam, outros tentam, outros se automutilam, e por aí vai. Eu nunca tive nenhuma dessas tendências, mas morri por um ano. Por um ano – ainda solteira – permaneci fechada em meu quarto, de janelas fechadas e luz apagada. Acendia a luz apenas quando queria ler um livro. Esperava meus pais terminarem as refeições para me alimentar. O contato social era insuportavelmente desgastante e irritante para mim, mesmo que as pessoas fossem meus próprios pais. Talvez seja desnecessário escrever o quanto chorei, me irritei com tudo e fui consumida pelo pessimismo, a falta de perspectiva de vida, o pânico. Talvez não. Cada dia que falo abertamente sobre minha depressão, sem peso, sem amarras, como um fato verídico, compreendo  a falta de noção que as pessoas tem do que ela é. EU não tinha noção, nesse ano de morte, do que era tudo aquilo que estava acontecendo comigo. Minha família não compreendia o que eu passava. O César, então namorado, se desesperava.
Mas o instinto de sobrevivência lhe faz se agarrar em algo. No ano de morte eu me agarrei à leitura. A única coisa que me dava um certo prazer era ir à biblioteca central trocar os livros por novos para, então, voltar a devorar palavras. Foi nesse período que virei rata de biblioteca, o que sou até hoje. Depois, por Graça, cansei de ficar morta-viva e decidi voltar a estudar, mesmo que em meio a uma instabilidade que até hoje me deixa perplexa. Como eu passei num vestibular público em meio ao caos? Acho que meu intelecto sempre foi a boia que não me deixou afundar de vez. Passei no vestibular, mas não consegui estudar. Foram 3 semestres carregados nas costas, para então trancar e trancar a matrícula até não poder mais, e perdê-la. Até hoje, quando conto essa parte da história, sou consumida por olhares inquisitores. Como assim, “desperdiçar” uma vaga numa universidade pública? Bem, antes isso do que desperdiçar a vida. Simples assim.
E foi nesse tempo que aprendi que o intelecto que eu sempre cultivei não tinha todo aquele valor que sempre lhe dei. Foi nesse tempo que aprendi que andar de bicicleta tomando vento na cara era uma das melhores coisas da vida. Foi nesse tempo que agarrei a vida com unhas e dentes, pelas pequenas coisas, pelos pequenos prazeres. Foi nesse tempo que comecei a olhar ao redor e perceber que, embora sofresse muito com a doença, embora costumemos representa-la como morte, ela foi meu chamado pra vida. Foi o chamado que a vida escolheu para eu me conhecer, conhecer o outro. E como Solomon diz nas suas considerações finais, ninguém que sobrevive a uma depressão continua o mesmo. Ele se torna mais amável e ama mais. Se torna mais compreensivo com as atitudes alheias, se torna incapaz de ver o sofrimento ao lado e não reagir de alguma forma. Se torna mais VIVO, positivamente mais crítico, menos fútil. É impossível não se tornar um ser melhor.
... me sinto cada dia mais abençoada por ter tido a oportunidade de ter meus olhos abertos, de ter a oportunidade de ter os olhos dos meus amados abertos (porque conviver com um depressivo não é fácil), de parar de cultuar o intelectualismo barato que fazia parte da minha vida. Abençoada por aprender que o egoísmo é necessário, que olhar pra dentro de si é fundamental. Embora muitas vezes eu tenha a sensação de que a vida vai passando e eu não estou vivendo-a, por conta das mazelas da doença, a verdade é que eu a vivo com toda intensidade que aprendi com os anos. Ainda luto, muito. Mas luto com mais sabedoria uma luta que se tornou mais leve, contra uma coisa que é inimiga e companheira, contra um monstro mais abrandado que estou aprendendo a domesticar.
Estar deprimido ou ter alguém muito próximo deprimido é um chamado pra olhar para as coisas que realmente importam na vida. Não ignore isso.

2 comentários:

Rick disse...

Lindo posto da Carina. Li trechos do livro do Solomon, ainda não li o livro todo. Foi muito importante pra mim ver que ele havia achado as palavras certas para nomear o que sentimos na depressão.
E concordo com vc sobre essa separação entre mente e corpo. Somos uma coisa só. Mente sã em corpo são.
Terapias corporais estão nos meus planos. Aliás, desde um certo workshop com FT! he he
bjs

Alyson Daas disse...

:Isso mesmo Rick! trate o corpo tb!!!
e qdo puder leia esse post:
http://www.pensamentosfilmados.com.br/br/geral/blog/metodo-de-atuacao-ou-enrolacao/#more-2920

hahahahahaha!!!

bjoka